terça-feira, 5 de outubro de 2010

E ela chora. Porque o seu dia demora.



Deixai correr pelas suas paredes a tristeza que predomina
Vozes que não chegam a lado nenhum
Gotas que se tornaram translúcidas
Choro da natureza por um acto de crueldade.
Gotas que se materializam com um triste olhar
Parede curva que nasce numa linha recta
Paredes que foram outrora pintadas em tons que actualmente se encontra desbotado
Sofrimento pelo desprezo que te atormenta.
Sentes que o teu corpo pouco a pouco está desfeito.
Cal que derrete por entre o estuque que alisa o teu altar
Restauro que demora!
Imponência que se perde motivada por uma imprudência
Tristeza sem provimento. Puxador sem polimento.
Fiel que abandona a dobradiça numa igreja que já foi motivo de cobiça
Coloco a mão por entre os elos que prendem o cadeado que te encerra
Será obra do diabo? Porque será que o restauro demora?
Não tenho a vida toda! Tenho que fazer algo mais!
E tu?
Continuas a ser tratada pior que os animais.
Quando passas junto a mim! Já em mim reparas-te?
Estou abandonada! Dou guarida a ratos e a aranhas!
Animais que engolem as minhas entranhas
Sabes de alguém que em mim repare?
Nas noites de Verão que eu passo a olhar para o céu!
Deverão os homens fazer algo! Grita a viúva tirando o véu!
Se a minha construção foi estabelecida por Deus para salvar todos os homens.
Então ordeno a quem eu salvei. Que me salvem a mim!
Caramba! Se é uma questão financeira?
Organizem um peditório.
E eu rezarei novenas por as almas do Purgatório.
Tenho saudades da repetição da oração vezes sem conta rezada.
Da missa e do sacristão. Do pão por Deus
E por entre o abandono da pia baptismal
Levanto a minha mão e com o punhal apertado
Defiro golpes que atingem os meus alicerces
Causando feridas que destroem pouco a pouco a minha solidez
Mas?
Se a Penitência dá lugar à Reconciliação
A minha destruição irá dar porventura lugar a um novo casarão!
E abandono esta visão turva que me entristece e me torna num ser errante
Que caminha para a frente esquecendo o passado que está situado atrás
Ser inculto!
A quem culpo por me castigares por algo que não fiz
Desfiro golpes que te lançam contra a parede
Lê os livros e aprende.
Dá um rumo ao teu corpo errante
E por o vento que te lança ao chão
Sente o apelo de um património em sofrimento
Que sofre! E se perde!
Capela de São Sebastião

@BomNorte2010