quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A Verdadeira história do BN




Ontem fui ao lançamento de um livro que se chama " No meu Bairro aconteceu". Como ouvi histórias que me causaram muitas saudades, lembrei-me de escrever a minha história.
Como é claro não irei dizer quem sou.
Mas deixo umas pistas e espero que gostem do verdadeiro BN.
A história chama-se: 
O Bom Norte em Carnide
A história começa em 1959 anos em que os meus pais vieram para Lisboa.
Lisboa o sonho. Lisboa a capital do País
Eles vieram à procura de uma nova vida, o meu pai tinha conseguido emprego na função pública.
Sendo assim vieram os dois acompanhados com os seus cabazes e malas de cartão à procura do El Dourado.
Com a sua entrada na função pública o meu pai já pode concorrer a uma casa municipal e sendo assim foi-lhe atribuído um fogo com a tipologia T1 no Bairro Padre Cruz situado em Carnide.
Na altura este bairro foi um local concebido pela autarquia a pensar nos seus munícipes e na sua qualidade de vida.
Talvez também fosse lema do antigo regime seja fornecer ao povo uma casa que tenha um jardim.
A moradia era unifamiliar e estava envolta e inserida num espaço de vários hectares.
Hectares esses onde estavam inseridas creche, escola primária, igreja, cinema, praça para abastecer as famílias, biblioteca, posto médico, parque infantil, lavador público, duas cabines telefónicas, posto de limpeza, um clube desportivo e estava fornecida por uma carreira de autocarro da Carris com o  nº41.
Estas condições actualmente fazem-nos suspirar de saudade.
Já que actualmente temos que nos deslocar durante dezenas de quilómetros para colocar ou talvez despejar os nossos filhos em certos tipos de espaços de qualidade duvidosa
E se porventura tivermos o sonho de gostar de cultura temos que pagar o acesso à cultura dos nossos bolsos.
Foi neste bairro que eu fui gerado e aonde eu cresci.
Nasci não em casa, o que era normal na época de 60 mas sim no Hospital Santa Maria, num dia de Agosto às 6:30 da manhã, ou em linguagem Internacional 6:30am, designação essa que eu sempre pensei ser “am” after morning e “pm” past morning, mas que na verdade A.M. significa “Antes do Meridiano/Anti Meridian”; P.M.significa “Pós Meridiano”.
Sei que o meu pai só visitou a minha mãe um dia depois de eu ter nascido.
E que depois dessa visita nunca mais fez questão de lá voltar.
Talvez por não me ter achado muito bonito?
Sim.
Porque eu tinha várias marcas de fórceps na cabeça.
Será essa a razão de eu ser filho único?
Talvez por isso nunca mais passou pela cabeça dos meus pais terem mais nenhum filho
Ou talvez tenha sido para me oferecerem uma qualidade de vida que apesar dos fracos rendimentos poderem me dar tudo do melhor.
Nesta época também não existia o costume de os homens irem visitar ou até acompanhar as mulheres às maternidades.
Também a parte cultural da época dava um certo distanciamento ao casal.
O homem da altura não vertia lágrima pelo canto do olho
Era um verdadeiro macho latino que servia para procriar e trabalhar.
Já a mulher servia somente para procriar e tomar conta dos filhos.
Por isso era normal nesta época as senhoras ou grande parte delas terem como principal e única profissão a profissão de Doméstica.
Profissão essa, que no meu ponto de vista não seria do agrado delas.
Assim sendo, quando chegou o dia voltar a casa lá vim eu mais a minha mãe para casa.
Bem. Não tenho bem a certeza?
Mas penso que foi o meu tio Manuel que nos foi buscar ao hospital.
Mas como todos os bebés eu nasci com a capacidade de subsistência.
 Por isso sabia perfeitamente como dar a volta ao adulto mais frio e insensível que existia.
Deste modo, lá consegui com jeito e encanto que o meu pai tivesse uma melhor opinião em relação a mim.
Bem foi a melhor que um filho pode querer.
Sempre de respeito e amor, nunca faltámos ao respeito um ao outro e sempre foi o meu melhor amigo.
Mas um amigo diferente porque os pais são amigos especiais que nunca devemos faltar ao respeito.
Coisa que não acontece actualmente na nossa sociedade.
Por exemplo, os indivíduos é que os indivíduos de etnia cigana costumam dizer, e com razão, que nós temos a ideia de que eles são maus.
Mas para eles maus somos nós.
Sim.
Porque abandonamos ou despejamos os nossos pais em lares.
Lares esses que não passam mais do que uma sentença de preferência rápida “à morte”.
Os idosos não servem só para enriquecer a indústria farmacêutica, mas sim para educarem e ensinarem. A passagem de conhecimento é primordial numa sociedade dita evoluída
Engraçado como é a vida.
Quando éramos mais novos geralmente ouvíamos
No meu tempo isto? No meu tempo aquilo?
E agora estamos a relembrar o nosso tempo e que às vezes parece tão distante e noutras vezes parece que foi ontem.
Em 1968 eu morava numa das muitas ruas com nome de rio.
E ainda me recordo que tinha como amiga uma vizinha da minha idade.
Amiga essa que se chama Elisabete.
Elisabete era a minha companheira de brincadeira até aos 5 anos.
Nessa altura as nossas brincadeiras eram muito diplomáticas. Ou antes tinha dias. Uns eram mais diplomáticos que outros.
Como duas crianças de sexo diferente que éramos
 Para nos darmos bem tínhamos que fazer cedências pois só assim existia uma harmonia entre nós.
Por isso de vez em quando lá tinha eu que brincar com as bonecas dela
E ela tinha que brincar com pistolas.
Era uma igualdade de direitos.
Quase um sistema perfeito que os adultos deveriam copiar.
Bem?
 Pelos menos os pontos positivos porque de vez em quando havia umas guerritas com vários enquadramentos.
O meu pai já sentia saudades da sua terra e de vez em quando sentava-se à porta e ficava a olhar para uma quinta de trigo que existia à frente da nossa casa.
Ainda me lembro de um dia chegar ao pé do meu pai um senhor com uma figura imponente e com bom porte que identificando-se como sendo proprietário dessa mesma quinta.
Apresentou-se mais detalhadamente e depois das apresentações feitas Questionou o meu pai se ele queria amanhar uma pequena parcela desse seu terreno.
Mas? Engraçado como em todas as ofertas existe um mas.
 Em troca o meu pai teria que tomar conta da sua quinta.
Essa exigência seria posteriormente comprida mas segundo o que o meu pai  me contou, passados dois ou três anos a Câmara Municipal de Lisboa ficou proprietária por morte do proprietário, da referida quinta, na medida em que o mesmo não tinha descendentes deixando em testamento a passagem da quinta para a Autarquia.
Actualmente, nesses mesmos terrenos, existem “dois cemitérios” que coabitam paredes-meias e em harmonia.
O cemitério de Carnide.
Cemitério que desde Janeiro de 2004 nas suas terras não são efectuados enterros devido a problemas de construção.
E a paredes meias encontra-se o cemitério de carros abandonados apelidado de parque das viaturas apreendidas.
Viaturas abandonadas na cidade de Lisboa pela PSP.
Parque esse que está a ocupar a zona que era destinada à expansão do cemitério.
Obra vergonhosa para a nossa Capital
Já que tanto um uso como o outro uso não serve a comunidade da melhor maneira, o cemitério de Carnide.
Era então na altura presidente da Câmara Municipal de Lisboa o Dr Jorge Sampaio.
Este cemitério foi adjudicado em 1991 à empresa Mota & Companhia por 5 milhões e meio de euros.
A obra seria terminada muito depois do prazo previsto, e como é normal pelo dobro do valor da adjudicação.
Na actualidade o dito cemitério não tem utilidade para o fim a que foi destinado e encontra-se ao total abandono.
Mas o que é mais engraçado é que este foi o único cemitério que foi construído na Capital “ Lisboa” no século 20.
E mesmo assim não aproveitou a tecnologia e os saberes para a não existência ou a quase ausência de erros.
Os populares na altura da sua construção diziam à boca larga que não era possível a construção do cemitério neste local porque existiam muitas hortas e poços
O local era propício à agricultura e não à decomposição dos corpos.
A Câmara tinha o conhecimento que os terrenos eram impróprios, tal como o construtor que na altura se comprometeu a transferir para o local terrenos mais arenosos provenientes da zona de Almada, a fim de tornar mais poroso a mistura da terra e assim facilitar o trabalho da mesma.
As hortas tiveram o seu inicio com o cultivo da dita parcela de terreno pelo meu pai que lhe foi oferecida pelo antigo proprietário em troca de deitar um olho ao local.
No entanto, o tempo demonstrou que o meu pai não era muito perito na sua vigília. Pois mal os outros vizinhos viram o meu pai cultivar a sua parcela
Invadiram o latifúndio e transformaram-no de imediato num minifúndio.
Estragando completamente a propriedade com o ordenamento desordenado das hortas.
Este ordenamento compara-se com a célebre expressão "Meter o Rossio na Betesga".
As hortas floresciam como os cogumelos, cobrindo todo o metro de terreno existente, transformando-o em terreno de cultivo.
Tal foi a proeza que quase como converter metros quadrados em metros cúbicos, porque isso na agricultura é possível.
 Faziam a plantação de morangueiros em bidões que enchiam de terra com um sistema de rega central e furado na sua envolvente com círculos donde saiam os morangueiros tornando os morangueiros quase uma planta aérea.
Por isso, para bem dos lisboetas que tinham imigrado das suas aldeias para a capital poderiam agora fazer uso da enxada e retomar às suas origens vestígios do seu passado rural.
Ainda me lembro de na altura eu mais os meus amigos andarmos pelo meio destes terrenos brincando aos índios e cowboys.
Aproveitando as vedações em canas para nos ocultarmos uns dos outros.
Fui também nestas hortas que muitos de nós fomos iniciados na grande Ordem de Beijar o sexo oposto sem oposição.
Corríamos em bandos e aproveitávamos para colher os tomates e dar umas dentadas no delicioso feijão verde.
Feijão esse colocávamos na boca e que nos dava o ar de um Marlboro Boy e aparecíamos de feijão verde na boca juntos dos velhotes que jogavam às cartas e questionava-os se nos podiam fornecer lume para os nossos eco-cigarros.
Eles olhavam para nós contentes e felizes, e com o seu ar desdentado diziam-nos a rir para nós fumarmos mas era barba de milho.
Conselho esse que nós prontamente tentávamos realizar.
Falávamos um pouco com eles e aproveitávamos um momento de distracção pela parte deles, para rapinarmos uns cigarros Três 20 ou Mata Ratos aos desleixados idosos.
De imediato depois de perpetuado o roubo seguíamos todos a correr pelos carreiros em direcção à azinhaga dos Lameiros onde nos deliciávamos na arte de travar fumo e fazer círculos com o fumo dos cigarros.
Argolas essas que nos deixavam deliciados com tanta beleza.
Por vezes dávamos por nós a olhar para as nuvens e a imaginarmos as formas que elas iam formando.
Aproveitávamos também para contar confidência uns aos outros.
O Ricardo um dia aproveitou para nos fazer uma revelação bombástica.
Rapaziada tenho um segredo para vos contar.
Tenho sido violado pelo meu pai.
Que nojo! Dissemos nós e cuspíamos de imediato para o chão
 Sabem que por vezes estou na cama e olho para a minha frente e sinto que o meu pai está a olhar na minha direcção.
Que nojento. Dizia eu para os outros
Detesto-o e tenho que viver com ele
Ele não é como os Pais dos outros meninos? Mas até parece simpático.
Dizes isso porque ele oferece-me carros que vocês adoram brincar!
Mas ele a mim trata-me como uma mulher
Sinto o teu sofrimento Ricardo e franzo o nariz sinto-me enjoado
Dentro de mim existe revolta! Nojo. E muita tristeza!
Olho todos os dias para a minha mãe sentindo que chegou a hora de lhe dizer a verdade.
Mas ainda não dizes-te?
Não. Será hoje o dia
Sinto-me um cobarde.
 Mas será que ela irá acreditar em mim? Ela gosta muito dele.
Olho para ti e sinto pena.
Ela farta-se de trabalhar e irá ficar triste e para quê?
 Ela nunca te irá perdoar. Estás quase a sair de casa.
Tenho dez anos. Achas?
A casa que partilho com eles será sempre para mim a recordação de uma infância perdida
Ele se calhar acha o meu corpo uma escultura de carne apetecida
Que ele arda no Inferno. Ele é um Canalha
Porque abusa ele de ti? Somos umas crianças
Será que ele gosta de te ouvir suplicar?
Quando ele está contigo costumas lhe dizer. Cuidado para não me aleijares.
Por vezes olho pela janela vejo os pássaros a voar e interrogo-me?
Se os pássaros partem! Porque é que eu fico?
Sou um tonto já me deveria ter habituado!
Está a chover. Bora! Todos a correr
O Ricardo entra em casa e sobe ao seu quarto
 Lá fora ele ouve as gotas a bater nos vidros!
Esse barulho faz-lhe lembrar as suas mãos quando em vão agarram os lençóis que envolvem o seu corpo.
As gotas de chuva são lágrimas que escorrem dos seus olhos e que rolam em direcção ao seu poço do silêncio.
Ricardo desce. Vamos jantar. O teu pai já chegou
Alimentas-te e portas-te com naturalidade.
Sentas-te à sua frente e cumprimentas com naturalidade
E pensas para ti. Como é que ele pode gostar dele
Desejo-te um bom jantar! Ganhei forças e vou fugir!
Olho para a escada e sinto um chamamento!
Força é desta.
Ele agarra na faca que tirou da mesa do jantar e corta os seus pulsos
No meio de tanto sofrimento tenta em vão levantar-se e repara que já não consegue
Ele é apenas um pensamento!
A sua Alma já à muito abandonou o seu Corpo
Deixou o mundo para não o arrastar!
Matei-me por tua causa! A minha Alma simplesmente quer vingança!
E continua a visitar-te para essa Paz alcançar!
E vive na esperança de que tenhas coragem e que assumas as consequências do teu acto.
Como sentindo a minha presença eu acordo e levanto-me e repente e pressinto que o Ricardo precisa de mim.
Saio a correr de casa e atravesso a rua para o lado dos números pares.
Bato à sua porta com força e grito nervoso o  seu nome.
Ricardo! Ricardo!
A porta abre-se, e é a sua mãe.
 Ela tem vestido uma camisa de noite já gasta pelo tempo.
As suas formas de senhora já há muito abandonaram o seu corpo
Olho para o rosto desta mulher. E suplico
Quero ver o Ricardo. Ele tem um grave problema.
Ela chora
Um choro de arrependimento.
Foi por minha causa! Foi por minha causa!
O que aconteceu?
Ele matou-se.
Eu abraço-me a ela e de imediato choramos os dois.
E Ele? O seu marido.
A policia já o veio buscar. Coitado está de rastos.
Mas a culpa foi dele. Ele violava o Ricardo.
Mas eu sabia e nunca fiz nada. Ele nunca me vai perdoar.
Ele perdoa-te.
Onde quer que ele esteja ele sabe do teu arrependimento
Deus pode perdoar! Mas eu nunca me irei perdoar!
Dizendo isso, abandono a sua casa e regresso a minha casa onde me deito na minha cama desfeita e fria a chorar e com o coração destronado
Sonho com ele.
 E vejo-o a juntar-se aos milhares de crianças inocentes que correm em filas formando ondas nos oceanos.
 Apanhando flores. Criando Arco-íris no céu, saltando, gritando de alegria.
E sinto que a chuva que cai são lágrimas dessas crianças que vertendo lágrimas sobre as nossas cabeças nos fazem lembrar que só conquistaram a felicidade?
 Através do sofrimento!
Acordo e acordo o meu pai e digo-lhe aos gritos
A violação é o acto mais selvagem que o ser humano pode recorrer! Pois é Simplesmente a busca de prazer de uma das partes a troco da humilhação da outra parte!
O meu pai olha para mim e pergunta assustado se alguém abusou sexualmente de mim.
Eu prontamente respondo que não.
Ele remata logo. Se alguma vez acontecer?
Não te cales! Nem perdoes! Dizes logo ao pai.
Este dia foi um dia de tristeza que retiro do arquivo da minha vida.
Mas no outro dia seguinte. Mas a miudagem se encontrou depois do funeral fomos logo fumar uns cigarros para a Azinhaga dos Lameiros.
Estávamos todos deitados em cima do poço que se encontrava tapado com uma tampa de cimento.
E começou a dar uma fome dos diabos
Depois de saciado o viço foi só saltar o muro da Quinta do Covões quinta que pertencia à família Covões do Coliseu dos Recreios que se encontrava cravado de vidros na sua parte posterior e galgar para o outro lado.
Ai aplicávamos a antiga arte de chinchada  “ Arte de roubar fruta”
Arte essa que o  Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles que é um dos principais defensores da importância da agricultura urbana, não deve achar muita graça.
Ele defende e realça a sua importância em muitas cidades.
È defendido em relatórios da Fao-Food and Agriculture Organization of the United Nations: “Organização para a Alimentação e Agricultura”, que suportam estas ideias, defendem e definem como destinada à produção de cultivo para ser utilizado para consumo próprio ou para a venda em pequena escala, em mercados locais.
Na minha opinião, essa mesma prática de Agricultura poderá ser perigosa devido ao uso em grande escala dos pesticidas. Já que nas hortas que eu conheço utiliza-se e abusa-se do 605 forte levando à morte muitas pessoas.
Além disso ele é muito prejudicial ao Ambiente já que é um Organofosforados.
Devido também à falta de controlo sobre a comercialização deste tipo de produtos altamente tóxicos, legais e ilegais, é uma das mais sérias ameaças à conservação da Biodiversidade em Portugal.
Por volta dos 6 anos de idade mudámos de casa, mas não de rua, passámos a morar numa casa de rés-do-chão e 1º andar, um T2, com 2 quartos na parte superior e uma sala e cozinha na andar de baixo, como diz a canção de Ricardo Azevedo no anúncio do Millenium BCP “...um pequeno t2 para podermos morar os 2...”. Bem, agora já não se pode cantar muito esta canção pois os Portugueses, em altura de crise, querem é saber qual o Spread que praticam os bancos, fiquei contente porque em dois quarteirões de casas da minha rua com 20 habitações cada quarteirão, o que perfaz a quantia de 40 casas, existiam algumas 50 crianças e adolescentes para eu brincar, e assim me iniciei no mundo alegre da infância, em que a única tristeza foi o inicio da escola primária com um horário das 9 às 17h.
A escola primária marcou-me bastante pela negativa, talvez a principal causa do meu pouco interesse e do meu fraco rendimento.
No primeiro dia tudo é o paraíso, levantamo-nos mais cedo do que todos lá em casa.
Depois somos uns chatos estamos sempre a perguntar se falta muito para irmos embora, pois temos uma mala nova, cadernos, lápis e borracha e um bibe.
Parece que somos outra pessoa, olham-nos com mais respeito e pensam que já sabemos ler e escrever ou quantos metros tem a Serra da Estrela,
Ou quem foi o primeiro Rei de Portugal, qual a linha do Norte e as suas estações e apeadeiros, os rios e afluentes, todos os distritos e suas capitais etc.
Tanta coisa e tantos anos a aprender para que agora no Google aprendemos isso em minutos e está documentado com fotos e breves descrições. Mas o ensino na altura era assim, já que estamos a falar de 1970.
Por vezes até pareço que sou o fantoche da sociedade
Bem se o não sou? Pelo menos pareço.
São 7:30 da manhã acordo e visto-me à pressa Passo pela minha mãe quase derrubando-a.
Então rapaz! Bom Dia. Não foi essa a educação que te demos?
Bom dia Mãe já estou atrasado para a escola!
Sim. Eu já conheço essa história. Quando a conversa não te interessa mudas logo de assunto. Ao menos come qualquer coisa!
-Sim. Eu como.
Abro a porta de casa e atravesso a rua apressado. Como a rua é fechada à circulação rodoviária, não existe o problema de ser atropelado.
Bem. Quase não existe carros aqui no bairro. Como ele é para classe operária, nesta altura não existiam os ditos rendimentos mínimos. 
Boa hoje até tenho 10 escudos.
Como é o primeiro dia de aulas, já posso depois ir comprar umas pastilhas Gorila ou várias Bola de neve
Subo a azinhaga em direcção ao centro de Carnide
Passo pelo convento das Freiras e como a porta da Igreja está aberta não resisto a espreitar lá para dentro.
A Igreja é linda sempre gostei de igrejas. Lá dentro da Igreja as freiras cantam.
Cantam uma canção em Latim.
Deve ser?
Pois não percebo grande parte do que dizem. Por isso tenho quase a certeza que é essa língua que canta
sol la- sol si.
Avé Maria,
sol si- sol la re
gratia plena
sol la- la-dim sol
Dominus
tecum
la- la sol re solo
Benedicta tu
Hoje gosto, Bonita música. Qualquer dia tenho que ir lá dentro ouvi-las com mais tempo. Talvez no fim-de-semana.
Credo! Lá vem um camião da fábrica de tijolo de Carnide é mesmo rez-vez Campo de Ourique.
 Nem sei como consegue passar aqui nestas estradas tão estreitas?
Fogos já estão uns rufias lá ao fundo da rua.
Tão cedo. Os pais devem tê-los corrido da cama
Então Puto! Isto é que é horas?
Desculpem? Algum problema? Hoje é o meu primeiro dia de aulas
Tens o dinheiro para nós?
Claro. O que é que estavam à espera.
Estás a gozar connosco. Deixa cá ver os bolsos e não refiles.
Dizendo isso agarram-me pelos braços e tiram do meu bolso a preciosa moeda da caravela cujo valor facial era de 10 escudos.
Boa o Tó conseguiu 10 escudos.
Nada mau para um caixa de óculos
Risos. Risos.
Já sabes. Todos os dias tens que nos dar dinheiro senão?
Claro! Eu já sei. Vocês da Horta Nova são os maiores. Da parte da tarde depois falamos todos
Xiu! Já estamos todos cheios de cagufa.
E boca calada. Se alguém souber tens que levar connosco.
E sabemos em que escola tu andas. Tens cara de beto. Por isso deves andar na escola particular em frente à Igreja de Carnide.
Somos Amigos?
Digo eu. Acham que eu vou tentar fazer alguma coisa contra vocês?
Tchau ¾ de dioptria! Até amanhã à mesma hora
 Amigos.
 Risos. Risos
Bem acho que ele com a sua inteligência deve associar ¾ como sendo a tipologia da sua casa? Três quartos. Toscos.
Bem são Toscos mas eu é que tive que lhes dar dinheiro.
Por isso tosco sou eu.
Sigo triste pela Rua do Norte em direcção ao Coreto.
Olho em frente e vejo que se aproxima o eléctrico.
Fogo. Tenho que apressar o passo devem ser quase 8 horas tenho que correr se quero chegar a horas à escola?
Hoje estou chateado.
 Que seca.
È sempre a mesma história. Os putos mais novos têm que  dar todos os dias dinheiro aos mais velhos
Senão? Batem-nos
Digo e repito isso várias vezes, para mim próprio
Que seca.
Já não me apetece ir para a escola.
Podia cair no chão e deslocar um pé. Assim ficava muitos dias em casa?
Não tenho paciência.
Pensando bem não tenho vontade de ir nunca mais para a escola!
Hoje ainda por cima é dia de bailarico em Carnide, e até está a chover.
Este episódio marcará para sempre o meu primeiro dia de aulas.
Mas o pior ainda está para vir.
A minha escola primária fica em Carnide ao lado da Igreja da Luz parece uma prisão pois tenho que cumprir um horário 9 às 17h sem intervalos.
Pelo caminho fui esquecendo o episódio que se tinha passado e fui acompanhando outros meninos que também se dirigiam para a escola.
Eles iam quase todos a chorar.
Exceptuando eu que para esquecer as tristezas estava sempre a sorrir.
Coisa de putos. Que não sabem o que fazer .
Mas mal cheguei à escola o riso que eu levava pelo caminho, evidenciado pelas outras mães ao mostrar aos filhos que eu me sabia comportar, pois eles mais espertos do que eu já iam a chorar, troquei logo de papel e disse para mim mesmo: “Fogo, isto parece uma prisão!”.
Ainda por cima na minha sala só havia mais dois rapazes, um que se chamava Carlos Sancho e o outro João Carlos, o resto eram raparigas.
E para meu espanto já a minha mãe tinha desaparecido.
A escola actualmente já desapareceu e situava-se em frente à Igreja da Luz em Carnide.
Com o começo da ida à escola começou a minha luta.
Enquanto os meus amigos andavam na escola pública do Bairro Padre Cruz, escola essa que prestava só meio-dia de aulas,
Período da manhã ou período da tarde, o resto do tempo iam para o ATL da escola.
Eu que andava na escola particular em que a professora era a Dona Maria, residente na parte histórica de Carnide.
Eu tinha que andar o dia inteiro na escola.
A ter que ouvir o sino da Igreja e rezar para a escola acabar.
Para agravar mais a situação a partir de certa altura a Dona Maria e a Dona Amélia começaram a atar-me o braço esquerdo à secretária por ser canhoto.
Sim
Para não poder usar a mão esquerda.
Agravando mais a situação, também era disléxico de desenvolvimento, que resulta de um défice de maturação. Por isso, tive dificuldades no processo de aquisição da leitura.
A escola primária está a marcar-me bastante pela negativa, talvez a principal causa do meu pouco interesse e do meu fraco rendimento. No primeiro dia tudo é o paraíso, levantamo-nos mais cedo do que todos lá em casa, estamos sempre a perguntar se falta muito, pois temos uma mala nova, cadernos, lápis e borracha e um bibe; depois parece que somos outros, olham-nos com mais respeito e pensam que já sabemos ler e escrever ou quantos metros tem a Serra da Estrela, quem foi o primeiro Rei de Portugal, qual a constituição da linha do Norte e as suas estações e apeadeiros, os rios de Portugal e os seus afluentes, todos os distritos e capitais. E em relação ás nossas colónias ainda pior! Será que elas alguma vez alcançaram a Independência?
E será que elas estão preparadas para isso?
Talvez um dia?
Talvez um dia?
Tanta coisa e tantos anos a aprenderem e acho que daqui a uns anos será possível saber tudo o que aprendemos na escola e muito mais numa questão de segundos?
Mas o ensino nesta altura é assim! Já que estamos a falar do ano de 1970.
Um dia as máquinas de escrever serão todas automáticas! E nós humanos não nos preocuparão mais com os nossos erros ortográficos já que os mesmos serão automaticamente corrigidos!
Mas estou a chegar à escola, olho para ela e penso?
“Fogo, isto parece uma prisão”. Ainda por cima na minha sala só existe mais dois rapazes, um que se chama Carlos Sancho e o outro João Carlos, o resto são raparigas.
Toco à campainha. Abrem-me a porta. Subo as escadas. Entro dentro do edifício
Começou a minha luta!
Enquanto os meus amigos andam na escola pública com um horário menos rigoroso
Parte da manhã ou parte da tarde, eu tenho que andar o dia inteiro.
E para minha tristeza desde os primeiros dias de aulas comecei a perceber que a minha visão era um pouco fraca, já que tinha dificuldade em ver o que estava escrito no quadro da sala de aula.
E para complicar ainda mais a situação a partir de certa altura começaram a atar-me o braço esquerdo à secretária já que sendo esquerdino nessa altura escrever com a mão esquerda era e é considerado uma deficiência!
Por isso era sou um disléxico de desenvolvimento, que resulta de um défice de maturação. Por isso, tive e tenho dificuldades no processo de aquisição da leitura.
Deste modo, iram ser quatro anos de sofrimento e torturas, sem intervalo e com provas dos nove e operações matemáticas, linhas do comboio, serras, rios Mas como depois da tempestade quase sempre vem a bonança?
Mas assim que saio da escola tudo muda!
Dirijo-me agora pelo outro lado de Carnide.
Vou pela Azinhaga vejo o Instituto Latino Coelho, serpenteio pelas azinhagas e vielas, vejo as vacas na vacaria e os pássaros nas oliveiras e que belo é ver as duas fábricas de Tijolo a laborar e a contribuírem para a construção do nosso País.
Quando chegava ao Bairro, ia logo à procura dos meus amigos para brincar.
Cada brincadeira era escolhida de acordo com o nosso calendário de jogos.
Pois naquela altura cada brincadeira tinha a sua data.
Desde o berlinde ao pião, à carica, tudo tinha a sua altura.
Ou então andávamos de trotinete ou carrinho de esferas pela Rua Rio Tejo abaixo.
E para fugirmos do fiscal do Bairro para ele não nos apanhar íamos construir esconderijos nos canaviais que faziam a divisão das hortas.
Esconderijos esses a que nós apelidávamos de Cóis.
Para entrarmos neste Cóis tínhamos que ter uma senha que dizíamos e uma contra-senha de resposta
Ainda me lembro de uma que eu inventei que era a seguinte:
A Julieta mora em Carnide.
E prontamente a contra senha era
 O Espírito canta e chama por ti.
Foi uma senha que se manteve durante muito tempo. Já que era tão elaborada e difícil de decorar que durante o tempo que ela se manteve em vigor eu fui proclamado o Chefe do Cói.
Eu andava todo contente com as minhas novas funções e como achava o esconderijo que partilho muito grande no Inverno ele tornava-se escuro e frio.
Tivemos que fazer muitas alterações nele.
Apanhávamos nos caixotes do lixo tudo o que fosse translúcido de modo a ganharmos luz.
Eu  Adorava aquele espaço.
Neste espaço lia para os meus amigos mais novos aquelas revistas de folhetim ilustrado com títulos sugestivos, “Suicida te torna e por amor me matas”.
Adorava quando o rapaz que era o galã virava-se para a eterna apaixonada e lhe dizia baixinho
Tu És o Alfa e o Ómega da minha existência
Quebraste para sempre o nosso Amor
No compasso de espera o meu corpo te abandona!
De repente o Rui saltava um grito de alegria e dizia para todos nós
Eu sei o que é um compasso, È um lápis com duas pernas que desenha bolas na folha.
Eu olhava para ele e dizia-lhe
A minha alma se solta de tanta sabedoria e se quebra
Abandona o meu Ser triste e amargurado com tanta sabedoria.
Que conversa replica o Luís que estava a gostar da história e talvez a sonhar que quando fosse grande iria ser um grande Amante.
Tão grande como a sua mãe que foi uma amante de todos os homens do Bairro e da Urmeira e arredores.
Continua, quero ouvir a história.
Jaz quase sem vida envolta em dor!
O meu corpo deixa de ser sensual
Carcaça se torna e frio parte em busca de Paz
A luz da rua torna-se ténue e a luz fosca dos candeeiros teima em não se acender. O Céu escurece e a Lua começa a brilhar Os pássaros deixam-me partir.
Meninos. Eis que Chegou a minha hora! Os meus pais já devem estar aflitos por eu não estar em casa.
Lê só aquela parte que diz que tu sofres por ver-me subir
E eu continuo mais um pouco a leitura desta revista com fotos com palavras.
Sabes que me levaste a vida
E tornas-te suicida
Por Amor me matas
E te matas por Amor
Olhas em frente e gritas
Para junto de mim te levarem
Mas os pássaros abandonam-te à tua sorte
A lua deixa de brilhar
Eu olho por entre as canas e reparo que o céu que estava limpo agora escurece ele agora torna-se uma escultura que projecta a minha Alma
E continuo com a leitura
E o meu Deus recusa a tua vinda
Choras e gritas! Pedes para eu te vir buscar
Mas continuo sem te poder ouvir
E tu partes na esperança de me poderes encontrar
Rapazes. Esta revista faz-me lembrar o fado que se canta por tristeza
E gritas as palavras por necessidade de te ouvirem
Nem fales em fado.
No outro dia fui mais o Zezinho ao Cemitério de Benfica e ele como anda pela Mouraria a cantar o Fado na Rua do Capelão viu umas palavras que estavam inscritas num jazigo e começou a cantar assim:
Teu corpo que era de matéria
Em pó se torna
Se separa e se lança ao Mundo
O Vento o leva!
E ele que outrora era sensual
Torna-se em luz e parte-se
Deixando a tristeza e levando a esperança
E perdes a razão! Sentes a necessidade de me encontrar!
È linda a letra. Apetece-te voltar ao inicio e cantar do principio?
Não é preciso eu sei o resto.
Ténue matéria te tornou
Perdes o teu existir
E sentes necessidade por algo
Que sabes que nunca terás
Mas rezas agora por mim
E um Anjo desce para te vir buscar
Agarras-te a mim a chorar
Pedes-me perdão e olhas o meu corpo
Sentes que deixaste de Amar!
Triste te torna e pedes para regressar
Farto de ouvir tanta tristeza, eu solto um grito de revolta
E grito zangado para eles.
Eu sou um grão de areia? Por quem me te tornas
Vagueias pelo mundo em busca de matéria
Procuras um corpo
E queres voltar a Amar
Eles olham para mim de olhos arregalados e começam a bater palmas e assobiar.
Dei um show de mestre e eles podem recordar para sempre estas minhas palavras saídas do coração com sentimento.
E assim tal como num jardim se faz uma vedação com Buxo ou Murta.
 Aqui a vedação com tufos de canas o que proporcionava a nossa imaginação, e no interior delas esculpíamos nichos e grutas para a guarda de todos os nossos objectos de brincadeira, e onde podíamos fazer a nossa iniciação na arte de fumar.
Além de estarmos fumar longe dos olhares dos adultos
Até o meu amigo Vítor poderia fazer jus ao seu perfil de pirómano e de vez em quando atiçar os caniços.
Sendo esse um dia de acção e de alvoroço com a chegada ao Bairro dos carros de bombeiros com as sirenes em altos gritos. Geralmente a chegada deles coincidia com o rescaldo do incêndio. Mas por vezes o incêndio era de difícil controlo devido ao denso canavial e ás altas temperaturas que se sentiam na época.
Ainda me lembro das mulheres mais idosas começarem aos gritos assim que viam chegar ao Bairro a corporação de Benfica com as pomposas viaturas e estridentes sirenes
Elas só se benziam e gritavam
Em nome de Deus em defesa do próximo. Ainda bem que chegaram. Aleluia
Sinto a pele a estalar de tanto calor. Refila um dos bombeiros.
De tanto soar. Contra o fogo lutar. O Sr. José está sentado no lancil da estrada
E diz para um vizinho que está ao seu lado
Não complico e por vezes suplico. Mas este incêndio não é vela que apago com um sopro!
Já encharcámos o terreno todo para acabar com o calor e manter a terra fresca.
Se aqui houvesse giestas? Como na minha terra já tinha apagado o incêndio e vocês escusavam de ter vindo para cá
No meio da confusão dois soldados das pás embatem um contra o outro
E pás e contra as pás caíram os dois no chão!
Cai mais um Soldado da Paz! Que se encontrava distraído olhando de soslaio para uma linda moça que valorizava o seu trabalho.
O vento sopra de novo e a brisa alisa o caminho por eles passam
Sinto estalar. Queimar. Cinzas no ar. Rosto sujo que tento limpar.
Não consigo respirar.
Por entre a roupa procuro um talismã
Os pássaros fogem assustados pelo alvoroço e pelo crispar do fogo
Estou só! Não tenho o céu como companhia!
As nuvens penteiam o azul do céu. E o cinzento mistura-se com o azul.
Está já circunscrito? Questiona o comandante da corporação
Como? Meu comandante. Ele parece que está a ganhar forças novamente
E ele forte! Com vigor! Sopra labaredas! Respira força!
O meu surrealismo torna-se realismo!
Os coelhos correm e fogem abandonando as suas tocas!
Os bombeiros tentam por entre os populares descobrirem o causador do incêndio
Eu. Para não arranjar confusão Retiro-me de costas
Tenho a minha roupa encharcada com tanto suor de nervos.
Tentando me refrescar!
Ponho-me de lado, e tento passar despercebido no meio da confusão
Colo e descolo um velcro da minha roupa.
Estou cercado de pessoas que tentam descobrir o causador desta confusão nada a fazer
Pareço um pássaro dentro de uma gaiola. Aprisionado.
Sinto-me cercado por um gato que me tentam agarrar
O vento forte torna-se um companheiro. O único? O Rui causador do incêndio já tinha abandonado o local.
Dói-me a barriga. Tenho medo.
Não fui eu que comecei esta aventura mas acabo sem um acto de bravura.
Sou um soldado sem armas. Soldado desconhecido. Luto contra forças irreais.
As labaredas que atacavam outras posições, de repente tentam abrandar e ficam quietas e imóveis. Parece que entoam uma canção tribal.
Tribo essa que quer um troféu.
E eu até pareço que sou esse troféu
A minha face está sulcada pela dor do encobrimento
O meu cabelo liso torna-se encaracolado. Cheira a chamuscado. Queimado.
Pareço que estou num caldeirão de ferro. Os traços do meu rosto já não são os mesmos.
Os soldados conseguem extinguir o incêndio e partem sem apurar que é o culpado.
Os meus vizinhos olham-me de lado, e parece que tentam jogar para cima de mim todas as culpas do sucedido.
Chego a casa e fico de castigo.
Mas o que é mais engraçado é que nós fomos sempre todos muito amigos.
Tentámos sempre ajudar uns aos outros.
 Mas com o passar dos anos fomos perdendo o contacto uns dos outros.
Actualmente não tenho nenhum amigo de infância.
Porque alguns morreram com problemas de droga e outros foram saindo do Bairro.
Lembro-me que por volta 1970, e nos anos seguintes, começou a venda e consumo de droga a surgir na minha comunidade; eu com 7 anos de idade na companhia dos meus amigos mais chegados, Orlando, Carlos, Paulo, Vítor o 41 por ter nascido no autocarro com o nº41, e o seu irmão Ernesto também conhecido por o 29 por ter nascido no autocarro com o nº 29 o seu irmão Rui também conhecido por o Zarolho devido a um problema de visão, e ainda Paulinho, Miguel e Luís, todo nós assistíamos pouco e pouco à degradação dos nossos amigos e irmãos mais velhos.
Nós nessa altura os mais velhos tinham uns 13 anos de idade e alguns de nós até um pouco mais.
Às vezes não sei quais os motivos que os levam a enveredar por este caminho.
Só sei que é difícil sair dele.
Eles roubam, matam, destroem as suas vidas e para além das deles, as das pessoas que com eles coabitam.
Começam a drogar-se porque se sentem infelizes.
Eles querem a todo o custo um bem-estar momentâneo.
Fazem-nos pessoas mais felizes.
 Pensam que resolvem todos os seus problemas?
Mas será que legalizar algo que faz mal, será correcto?
Algo pelo qual se mata e se rouba será solução legalizar
Será que essa solução irá tornar a droga mais barata, de maneira a que esta possa "manter vivos" os dependentes dela.
Será assim a forma mais correcta de agir perante um problema desta natureza?
Aos 9 anos de idade consegui fazer a minha instrução primária e ingressei na Escola Preparatória Marquesa de Alorna, situada em S. Sebastião.
Nesta altura passei a ir para a escola de transportes colectivos 
A viagem de autocarro tinha uma duração de aproximadamente uma hora. E como tinha que fazer duas viagens diárias os meus pais compraram o Passe Social, passe esse que estava a ser lançado na altura e que não era mais nem menos que um cartão em que se colava uma senha que tinha como validade 6 meses. Lembro-me que na altura era uma inovação, era um pré-comprado que tinha uma foto de identificação colocava-se uma vinheta para comprovar a sua validade. Juntamente com o cartão vinha uma folha de instruções cheia de letra miúda a relembrar que o respectivo título era pessoal e intransmissível e que o uso indevido era penalizado com uma coima.
Lembro-me que os primeiros dias de aulas foram fantásticos, existiam intervalos no fim da cada hora de aula, havia muitas crianças com quem eu poderia brincar, e existia também novas disciplinas, que eram: Francês, Português, Matemática, Educação Física.
Eis que chegou o dia 25 de Abril de 1974, o grande dia da revolução. Eram 7:00 da manhã quando a minha mãe acordou-me a dizer que só havia carros da tropa na rua, uma vez que o meu bairro ficava junto à estrada Militar e ao Regimento de Engenharia nº 1 da Pontinha onde estavam reunidos os Postos de Comando (PC) do Movimento das Forças Armadas (MFA), com as presenças: - Major Otelo Saraiva de Carvalho, Capitão-Tenente Vítor Crespo, Major Sanches Osório, Tenente-Coronel Garcia dos Santos e o Tenente-Coronel. Fisher Lopes Pires. Mais tarde, vindo de Tomar, juntar-se-ia o Major Hugo dos Santos. O Capitão Luís Macedo, oficial da unidade, garantia a segurança do Posto de Comando. Presente ainda o Major José Maria Azevedo dando apoio ao Posto de Comando.
Estava tudo muito confuso e pelos militares que lá se encontravam teve início o 25 de Abril de 1974 
A rádio começou a emitir logo de manhã indicações em código que só os militares conheciam: 
A primeira senha para o início das operações militares a desencadear pelo Movimento das Forças Armadas, foi dada por João Paulo Dinis aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa “Faltam cinco minutos para as vinte e três horas. Convosco, Paulo de Carvalho com o Eurofestival 74, E Depois do Adeus ..”. A segunda senha para continuação do golpe foi dada pela canção Grândola, Vila Morena, de José Afonso, gravada por Leite de Vasconcelos e posta no ar por Manuel Tomás, no programa Limite da Rádio Renascença, à meia-noite e vinte, sendo antecedida pela leitura da sua primeira quadra. Grândola Vila Morena foi composta como homenagem à "Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense", onde no dia 17 de Maio de 1964, «Zeca» Afonso actuou.
Contudo, a minha aventura nesse dia começou no transporte do autocarro com o nº 41
Autocarro esse que eu e mais algumas pessoas apanhávamos para chegarmos os nossos destinos.
Destinos esses que foram logo à partida alterados, pois quando chegamos à Praça de Espanha os Militares ocuparam o autocarro
Depois de acalmarem a situação alteraram o seu trajecto
Isso foi como medida de segurança para que não se cruzarem veículos em frente ao quartel-general em S. Sebastião.
Pelo caminho assistíamos a todo o tipo de movimentação militar e civil. Como fomos pela Avenida da República em direcção ao Rossio eram só carros a fazerem barreiras nas ruas de Lisboa e militares a formarem-se, e nós no autocarro com mais uns 3 ou 4 soldados que nos faziam escolta e iam-nos abrindo caminho até ao nosso novo destino.
As pessoas mais velhas iam perguntando o que se passava aos militares ao que eles prontamente respondiam:
É a Revolução.
O Fascismo foi destroçado.
Agora o povo é que manda.
Imediatamente um Sr. Respondeu. Povo?
Mas isto é uma República?
Onde será que param o Marcelo e o Américo?
Será que é desta que ficou tudo maluco?
O que vou dizer ao meu patrão por chegar tarde?
Podem se despachar com esta confusão
Ao que um dos soldados prontamente responde: 
Tem razão Senhor. Vamos tentar ser breves.
Sim. Porque na revolução tudo tem hora marcada.
Por favor. Por favor. Se chego tarde vou ser despedido. Disse outra pessoa.
É desta que a PIDE vos mata.
Vocês são novos, vão para vossa casa, não se metam com eles. E começou a contar histórias e todos que estavam no autocarro começaram a contar a sua experiência de vida.
Passadas muitas horas e centenas de barreiras eis que chegaram ao Rossio. 
O largo parecia mais uma concentração dos Amigos dos Autocarros de 2 pisos.
Os autocarros amontoavam-se por todo o lado e dali não podiam sair.
Eu entretanto Agarro numa caneta. Tombo o corpo para o lado e encosto-me ao vidro da janela.
Fico nervoso. Atrapalhado até. Os meus dedos estão a tremer!
Meu Deus o que hei-de escrever? Para mais tarde recordar. Tenho que perpetuar este momento. Sou jovem mas não sou burro.
O sangue banhado pelos nossos bravos nesta revolução será talvez em vão?
Ou talvez não?
Mas temos consciência que para conquistar terra alguns tem que tombar no chão.
Olho para um dos soldados e penso.
Se o teu nome desconheço. O teu número já eu decorei. Mas será melhor escrever o número antes que o esqueça.
Sinto que tu estás a fazer mais por nós. Do que porventura faremos por ti!
Um segundo mais de vida E talvez não te tivesses descuidado
Estou divagando num mar de poesia.
Aproveito este dia de Revolução para estudar as pessoas que estão a ser intervenientes neste dia.
E se a operação falhar não será a mim que pedes perdão por teres falhado a tua missão!
És mesmo Tonto! Tu és um herói.
Perfilados e alinhados como uma autêntica formatura. Estão centenas de soldados na Avenida da Republica a tentar controlar a situação
Sinto-me incomodado!
Olho para o chão do autocarro e desvio o olhar!
Que grande covarde que eu sou?
A vossa visão me inquietou. Sensibilizou. E marcará para toda a vida
No autocarro estes soldados aguardam pacientes. Quando chegar a sua altura sais daqui como um bravo e todos te irão louvar!
Pela terra te iram levar em ombros.
Parabéns campeão! Que grande coragem bem-haja irmão.
Choras com emoção com medo que te aconteça algo e por não te despedires dignamente.
Deixas-te a família ficas-te ausente. Deixo-te para traz e parto.
Adeus e obrigado. Saio do Autocarro
Caminho depressa. Não olho para traz mas sinto-me limpo
Estou triste e feliz também. Atrás de mim alguns portões de edifícios históricos fecham-se a chave roda!
Eu continuo perfilado e triste. Magoado.
Caminho em direcção aos Restauradores.
De repente o corneteiro toca!
Enfim! Hora de sair daqui.
Companhia! Destroçar.
Lança a ordem o oficial!
Todos estão em sintonia Está na hora de descansar um pouco O dia ainda agora começou

O sol está forte e brilha na encosta
A grafonola toca uma música de intervenção
A música vem do prédio 31.A música é aquela que a malta gosta.
No jardim o torniquete começa a rodar. Molha-se a terra começou a rega.
O dia está bonito a liberdade está a chegar!
O cenário está montado. Bom dia e obrigado!
Bem, lá tive que ir a pé até S. Sebastião até á escola e ainda por cima tinha que fazer o caminho todo a pé e no meio da revolução.
Esse dia ficará gravado na minha memória e sei que todos os anos alguns dos meus vizinhos ainda dizem à minha Mãe que viram na televisão uma foto minha a caminhar sozinho cercado por soldados por todo o lado. 
Eu nunca vi essa foto? Mas gostava de a ver! Já tentei fazer várias pesquisas na Internet mas nunca a encontro. Por isso descobri esta foto que retrata o que se passou comigo nesse dia.
Quando cheguei à escola , como é obvio ela encontrava-se encerrada.
Como estava situada junto ao Quartel-general tive que ir novamente a pé até minha casa.
O que quer dizer que desde a minha saída de casa até à minha chegada à escola já tinham passado umas 12 ou mais horas. Já estavam todos um pouco preocupados, mas como a televisão da época não era como agora, cheia de sensacionalismo, a minha mãe nem nunca teve a noção da gravidade do caso.
Foi um dia muito especial assim que jantei fui logo para a rua assistir ao 
Que as milícias de pessoas faziam pelas ruas do Bairro 
As milícias andavam pelas ruas do bairro com listas de pessoas feitas à pressa e quase todas com informações incorrectas.
Guiavam-se e ouviam as queixas dos moradores em relação aos vizinhos.
E perante as informações arrombavam as portas para desocuparem as casas.
Casas essas que eram prontamente ocupadas por vizinhos sedentos de fazer mal aos outros.
Já que assim que entravam nessas casas punham os haveres do anterior ocupante na rua. E mudavam a fechadura.
Dá para calcular o espanto e a confusão que deu. Quando os proprietários chegaram a casa e viram que tinham a fechadura mudada e a casa ocupada.
Depois da ocupação decorreu no salão de festas do Bairro Padre Cruz um plenário sobre troca e recolha de informações sobre as pessoas que poderiam ter alguma relação com a Pide mais conhecidos por os bufos.
Nessa mesma noite, como é esperado, ninguém dormiu em minha casa e nas ruas alguns que queriam dormir nem casa tinham para dormir.
Lembro-me que em minha casa foram recolhidos alguns desocupados.
Mas durante as noites seguintes sempre existia em minha casa um rodopio de homens que batiam à porta baixinho e só queriam falar com ele.
Falavam com o meu pai muito baixinho.
A única palavra que o meu pai respondia era sempre 
“não tenhas problemas, eu rasgo a folha”. 
Só mais tarde descobri que o meu Pai tinha tinha ajudado uns tantos Pides 
Pides esse que por sinal eram uns pobres coitados que tinham sido arrastados pelo sistema.
Mas que não faziam mal a ninguém, pois só tinham se inscrito através de alguém que lhes dizia que era seguro ser Pide.
Soube que o meu pai tinha sido escolhido pela Câmara onde trabalhava para ir desocupar os arquivos da Pide em Sete Rios.
Depois transportá-los para um determinado sitio. Sitio que eu nunca cheguei a saber qual era.
Sei que o meu pai leu muitas das fichas e que grande parte delas o surpreenderam pela negativa. 
Os colegas que tinham pedido para rasgar o registo mas que eram maus. O meu pai manteve a ficha e eles tiveram que responder pelo que fizeram.
Aqueles que foram somente umas vítimas ele rasgou as fichas e assim somente os justos foram recompensados. 
Devido à minha curta idade não estava dentro do que se passava na altura mas sei que não existia liberdade em Portugal.
Apenas existia censura, e opressão sendo a actividade política associativa e sindical quase nulas, controladas pela polícia política.
Existiam presos políticos. Alguns dos quais eram residentes do Bairro
A Constituição da altura não garantia os direitos dos cidadãos. 
Portugal mantinha uma guerra colonial e encontrava-se praticamente isolado da comunidade internacional.
A informação e as formas de expressão cultural eram controladas, fazia-se uma censura prévia que abrangia a imprensa, o cinema, o teatro, as artes plásticas, a música e a escrita.
A actividade política estava condicionada, não existiam eleições livres e a única organização política e aceite era a União Nacional / Acção Popular. A oposição ao regime era perseguida pela polícia política (PIDE/DGS) e tinha de agir na clandestinidade ou refugiar-se no exílio. Os oposicionistas, sob acusação de pensarem e agirem contra a ideologia e práticas do Estado Novo, eram presos em cadeias e centros especiais de detenção. Não havia Liberdade nem Democracia.
A Constituição não garantia o direito dos cidadãos à educação, à saúde, ao trabalho, à habitação. Não existia o direito de reunião e de livre associação. 
As manifestações eram também proibidas. Portugal estava envolvido na guerra colonial em Angola, na Guiné e em Moçambique, o que gerou protestos de milhares de jovens e se transformou num dos temas dominantes da oposição ao regime, com especial realce para os estudantes universitários. 
Hoje é difícil imaginar como era Portugal antes do 25 de Abril de 1974. Mas, se pensarmos que, por exemplo, as escolas tinham salas e recreios separados para rapazes e raparigas, que muitos livros e discos eram proibidos, que existiam nas rádios listas de música que não se podiam passar, que não havia acesso a muitas das coisas que hoje fazem parte do nosso dia-a-dia, e que sobre todos os rapazes de 18 anos pairava o espectro da guerra. Será mais fácil compreender porque é que a mudança teve de acontecer e como Portugal se tornou diferente.
No dia 26 de Abril, há 1 hora e 30 minutos, a Junta de Salvação Nacional apresentou-se ao país perante as câmaras da RTP. Pelas 7 horas da manhã, por ordem do Movimento das Forças Armadas, cujo Posto de Comando se encontra instalado no regimento de Engenharia 1, na Pontinha, o Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, o Presidente da República, Américo Tomás e outros elementos ligados ao antigo regime, são enviados para a Madeira. Às 9 horas e 30 minutos, a PIDE/DGS rendeu-se após conversa telefónica entre o General Spínola e Silva Pais, director daquela polícia política.
No dia seguinte, 27 de Abril, foram libertados os presos políticos das cadeias de Caxias e Peniche. E foi apresentado ao País o Programa do Movimento das Forças Armadas.
No dia 29 de Abril, regressou a Portugal, à estação de Stª Apolónia, o líder do Partido Socialista (PS), Dr. Mário Soares. No dia seguinte, regressou a Portugal, ao Aeroporto de Lisboa, o líder do Partido Comunista (PCP), Dr. Álvaro Cunhal. A manifestação do primeiro de Maio, dia do Trabalhador, reuniu em Lisboa cerca de 500.000 pessoas. Outras grandes manifestações decorreram nas principais cidades do país. No dia 16 de Maio deu-se a tomada de posse do 1º Governo Provisório presidido pelo Dr. Adelino da Palma Carlos. Deste governo faziam parte, entre outras figuras, o Dr. Mário Soares, o Dr. Álvaro Cunhal e o Dr. Francisco Sá Carneiro, líder do Partido Popular Democrático (PPD). As primeiras eleições livres, realizaram-se a 25 de Abril de 1975. Num acto eleitoral com uma taxa de participação de 91.7%, os portugueses elegeram a Assembleia Constituinte, incumbida de elaborarem e aprovar a Constituição da República.
A 2 de Abril de 1976, a Assembleia Constituinte aprovou a Constituição da República.
Muita coisa se alterou com o 25 de Abril de 1974, mas a mudança não se efectuou num dia. Foi preciso tempo, empenho, coragem e sacrifícios de muitas pessoas para construir um país diferente onde Liberdade, Solidariedade e Democracia não fossem apenas palavras. 
Para chegarmos aos dias de hoje, foi necessário aprendermos a viver em Democracia e a saber o significado de tolerância. 
Passo a passo, dia-a-dia, como acontece connosco, Portugal foi mudando. Ao longo deste caminho, construíram-se partidos e associações, foi garantido o direito de expressão e realizaram-se eleições livres. 
Vivemos em Democracia. Terminou a guerra colonial, e as antigas colónias portuguesas tornaram-se independentes. Vivemos em paz. A Constituição garante os direitos económicos, jurídicos e sociais dos cidadãos. Hoje, podemos falar livremente, dizer aquilo com que concordamos e o que não apoiamos, integrar associações, viver num novo Espaço Europeu e ter acesso directo ao Mundo sem receio de censura ou perseguições.
No seu conjunto, a sociedade portuguesa revelou uma grande flexibilidade assim como uma capacidade de adaptação que surpreendeu os que viam sobretudo a rigidez das estruturas e dos comportamentos. Esta espécie de plasticidade foi, por exemplo, demonstrada com o acolhimento rápido e pacífico de umas poucas centenas de milhares de Africanos, Latino-americanos e Asiáticos que estabeleceram residência em Portugal ou adoptaram a nacionalidade. De igual modo, o derrube pela força mas sem violência, do regime autoritário, assim como a ultrapassagem democrática das tentativas anti-revolucionárias, igualmente feitas sem violência, foram sinais da maleabilidade da sociedade. Em contraste com o que se passava na era colonial, há alguns traços multiculturais, facilmente visíveis nas grandes áreas metropolitanas.
Há vinte anos não existia o passe social, salário mínimo nacional, nem contratos de trabalho com pagamento de 14 meses de salários, ou seja, o reconhecimento ao direito de subsídio de férias e de Natal. 
Os cônjuges casados segundo ritos da Igreja Católica não podiam requerer o divórcio aos tribunais civis. O casamento e o divórcio passaram a ser livres, dependendo apenas da responsabilidade individual.
São conquistas do 25 de Abril, de tal modo inseridas no quotidiano que mal se dá por elas.
Às vezes tenho pena de não ter tido uma máquina fotográfica para captar estes momentos e perpetuar para sempre esta revolução
O ano de 1979 foi muito triste para mim, porque faleceu a minha tia -------, com 21 anos de idade, vítima de Leucemia, 
Ela estava internada em França, no Institut Cancérologie Gustave Roussy, onde esteve internada. 
Este instituto fica situado em Villejuif é considerado um dos melhores do mundo em doenças cancerígenas.
A doença de Leucemia é uma doença maligna com origem nas células imaturas da medula óssea. A produção de glóbulos brancos fica descontrolada e o funcionamento da medula óssea saudável torna-se cada vez mais difícil, diminuindo progressivamente a produção de células normais, dando lugar ao aparecimento de anemia, infecções e hemorragias.
Existem vários tipos de leucemia caracterizadas pelo tipo de célula afectada. Pode ser aguda ou crónica dependendo da velocidade de proliferação das células leucémicas.
A minha tia Alzira, ainda em vida, teve a oferta de ser utilizada nela a Criogenia
A 12 de Janeiro de 1967, o professor de Psicologia da Universidade da Califórnia, Dr. James Bedford, tornou-se no primeiro ser humano a ser conservado em criogenia.
Depois de ser consultada e de ter conversado com os meus pais, a minha tia recusou, mas ofereceu o seu corpo à ciência para todas as experiências em vida fazendo muitos testes sem o recurso à anestesia para não adulterar os resultados. Sei que o Estado Português através da Segurança Social, Cruz Vermelha e Tap-Transportes Aéreos Portugueses prontificou a ajuda necessária, talvez porque como a minha tia estava a servir em casa de uma Senhora que era Viscondessa e vivia no Príncipe Real, foi tudo mais rápido na vinda dessa ajuda, que consistiu em ir para um hospital em França.
As viagens dela e do meu pai, que era quem a acompanhava, foram todas pagas pelo estado Português.
A minha tia sempre foi muito boa pessoa e e, por isso, todas as pessoas gostavam dela tanto em França como no Bairro.
Foi devido à sua simpatia que inúmeros emigrantes portugueses que se encontravam em França a visitavam sempre que podiam. 
Talvez essa visita tenha sido a conselho das “Casas de Emigrantes Portuguesas” que existem em França. 
Sei também que ela teve aulas na Alliance Française, aulas essas privadas devido ao seu estado incerto de saúde, e que ficou a falar correctamente a língua num período curto de tempo.
Após estes anos, lembro-me perfeitamente da sua luta e coragem bem como de todo o apoio que recebeu para ter uma luta digna e o mínimo de sofrimento. Agradeço à sociedade quer seja a Portuguesa quer seja a Francesa, pois prestaram o seu apoio na melhor forma a Cruz Vermelha e as Religiosas que a visitavam e à TAP.
E sei que ela considerou os meus pais como também sendo os dela. E a minha tia para mim foi talvez a irmã que eu não tive!

Por isso, continuo a acreditar na sociedade em que estou inserido e que pelo menos ela não é assim tão má, talvez às vezes nós não tenhamos aquela ponta de sorte.



5 comentários:

Lisa disse...

Se é ficção ou não gostei de ler.
bj Lisa

Adelina disse...

Gostei muito de lê-lo mais uma vez,contou uma história que é comum a muitos de nós,seja a sua própria ou mesmo a dos seus pais,nessa época as vidas eram quase copiadas a papel químico,emigrar da província,fazer uma horta,Marquesa de Alorna,até os amigos de infância que já partiram,tudo familiaridades!1ºde Maio de 74,(duas vezes na minha vida me senti a andar no ar...esse dia em que prestes a fazer os meus 17 aninhos lá estive"no estádio 1º de Maio" e o fecho da expo98)Não gosto de multidões,mas são dois marcos na minha vida;lá isso são.
Bom Norte,seja lá você quem for...tem uma história,e nesse e comum todos a temos,resta-nos contá-la!

MARIA CHRISTINA disse...

BN adorei....bem acho que é verdade o que voce escreveu sobre voce....bem de qualquer maneira....voce diz muitas coisas que foram verdades....e não foram tão diferentes aqui no Brasil....e da maneira que descreves tudo, quando me vi estava eu dentro da sua história.....
bj
Christina

Anónimo disse...

BOM NORTE, ADOREI. SEJA LÁ QUEM VOCÊ FOR , ESCREVE MUITO BEM... JINHOS. DEL CARMEN ABREU ABREU

Manu disse...

Frequentei a primária até 2° classe no colégio de freiras ao lado da Igreja da Luz em Carnide, isto no ano de 1975. Que convento é que era ou é e ainda existe?
Bjs Manu