quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A água


Hoje a água escorre sobre a minha cabeça, solta-se em cascata. Liberta-se e faz-me recordar um pássaro que foge da sua gaiola. Sua? Pobre pássaro que nunca pediu para lá ser encarcerado As suas lágrimas escorrem pelo meu cabelo castanho que a luz do vitral faz brilhar. Dilacerar de um coração, sob o altar Nossa Senhora penteia-me os cabelos. A ânsia de viver, faz o pastor tremer, torna-se meu companheiro, cúmplice da noite Noite que paga a promessa, menina que a mãe embala, dorme menina, triste e franzina. Dorme no regaço da sua mãe, que lê os meus poemas. Decora as palavras que lhe aquecem o coração. Vogais que cada vez são mais. Extraio as consoantes que me conduzem à luta, vida que me ataca e disputa. O baptismo abre-me a porta da torre, seca-me do banho que Deus me deu. Deus do Norte que me oferece a sorte e me dá alegria para viver. Europa que me abraça, cadencia que me lança na estrada da vida. Pecados eternamente confessados, que lançam o dia na noite do pecado Pilar que suporta a minha existência, as azedas saciam a minha sede, tremo da sua acidez Aguardo à vez. A mão fechada que me agarra pela cabeça, Pecado que faz padecer os eternos desamparados que procuram iluminados. Deixai a criança viver. Libertai-a das águas turbas que a puxam para as entranhas da terra. Os trovões aquecem os travões e marcam inúmeras estremas para afastar o pecado. O cavalo troteia, e o cavaleiro apeia-se. Eterno herói que me oferece o ar soprado pelos seus pulmões. Os monstros arregalam as suas pupilas e afastam-se. Formam filas compactas, e arrastam-se em direcção ao centro da terra. Os anjos tocam trombones, e a pomba paira sobre a minha cabeça. Deixa a criança adormecida, e o mais pecador convencido. O milagre vence o crepúsculo. E os pais debruçados sob a criança, ardem de alegria, e esboçam sorrisos nervosos. O padre é a justiça e a pia o júri que lava a minha alma. O ódio abandona a terra, e a criança venceu a besta e dorme sossegada.Sonha com a paz. Mas uma vez Deus vence a serpente, e deixa sob as chamas, o pecado que se mistura com as cinzas Bom Norte

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